domingo, 8 de agosto de 2010

A gente não some...

É bom quando um sonho te marca profundamente e te toca na alma...esse sonho foi assim e acordei com um novo senso do que é essa vida...



Sonhei que eu morri e estava em um lugar onde me dão o nome de uma pessoa que devo procurar, pois ele cuida dos recém-desencarnados. Eu ainda estou na dúvida no sonho se morri mesmo ou se estou sonhando, mas cada vez mais vai se confirmando que realmente estou do outro lado. Caio em prantos quando penso que aconteceu mesmo e não tem volta, quando lembro de todo mundo desse lado de cá que não posso ver e como devem estar? Mas sigo para achar esse cara, sigo uma trilha que vai em meio a gramados e árvores bem bonitas e chego nesse outro lugar e pergunto por "Iron?" algo assim...Olham pra mim e compreendem, "ah sim, acabou de desencarnar", estou com o rosto manchado de lágrimas. Ele está numa escrivaninha trabalhando e me levam até ele. Eu digo, "mandaram eu te procurar..." E ele, ah sim. Ele me junta com outra menina que também é recém chegada e vamos ao nosso quarto dormir. A essa altura eu me dou conta que com certeza morri, não é um sonho, começo a chorar de novo. Penso que devo ser muito apegada ao mundo material para chorar assim, mas me dou conta que não é tanto pelo mundo, mas pelas pessoas e me dou conta também que posso sentir o sofrimento delas por mim e isso me faz chorar mais ainda. Entendo o que diziam de que o desespero dos que ficam pra trás atrapalha a adaptação do novo desencarnado. Vou ter que achar um jeito de mandar alguma mensagem pra que todos fiquem mais sossegados.
Apareço para minha mãe rapidamente e enquanto vou desaparecendo peço a ela, "Fala pro Ezequiel, fala pra ele que a gente não some! Fala que amo muito ele!"

sábado, 7 de agosto de 2010

Crash into me

Night writing is a queer type, most sincere and unfiltered by the sun. 


At times, no ocean is enough to soak up, I cannot dissolve enough into the world, particle by particle.
At this moment, there is an ocean inside me, splashing and crashing strongly against my chest, longing for release.
 Loud and mighty.
Moves mountains; drowns bodies.
I want to dive and then - 
dive deeper 
 Ignore the pain in my lungs
 Water engulfs me warmly and takes me in whole.

I shall dream with water tonight.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Tipping Scales


Whenever I start giving myself a hard time for my apparent "stuckness" in life, I make myself remember where I come from and what it has taken to get to where I am now. Then I relax. A little. There's always a little edge of tension and guilt when I confront myself with the unavoidable questions that family/friends/strangers throw my way, the infamous trio: what did you do/what are you doing/what will you do? Really, what is people's obsessions with my doings? But it's understandable as well, that's our people location map nowadays, people only make sense to us on the basis of what they DO and the many ramifications of that. It sucks, if you ask me.

So, back to what I started off with...My main task nowadays is keeping my feet off the fickle trail that gets too close to the cliff edge of depression. It's a vital task that also goes invisible to most. When you're in the pit or hanging off the edge, it's obvious what you're fighting for and people are sympathetic, mostly. But the post-depression maintaince is not so obvious and not so sympathy-provoking.
It's volumous work. After years of this I've got the moves down, but that doesn't make it easier. First, there is the recognizing and listing of the various red flags that are real no-no's for someone who has a record like me.
The slightest alterations in energy levels must be watched and quickly balanced, for highs can lead to crashes and slumps can lead to a snowball effect of down down down.
The waking up thermometer must also be watched...how difficult is the notion of another day? How does my stomach react? If it does, I must quickly get up, get up, GET UP and get my coffee going and something in gear, for that is a dangerous trap, the stomach churns.
The negative thoughts, devastating thoughts that are so logical and tempting, such as: you are worth nothing, you are lazy, you are a coward, everyone else is capable, why not you? you'll never be anything in life, only a burden to others, you don't deserve be alive. Oh god, with all my willpower I have to get out my chainsaw and cut these pernicious branches away! I can't even stop to consider if they make sense, for like Medusa's glare, they will turn me into stone.

I feel I'm still on the brink between having to be fully aware of this and between being able to let go and not be so afraid.
I hope the scale tips for good soon.

sábado, 31 de julho de 2010

2 em 1 (or Me at the Beach)

24jul
Us at the beach

I keep forgetting about “real life” here at Pipa. We're all living this little palm-tree beach fantasy and nobody wants to wake up. Everyone wonders about real-estate prices and how easy or hard it would be to try and make a living as an artist or musician. Waves lull us back and forth between the sky and the sand and we all fall asleep to the smell of sweet sweat and salt, after a hard day's work of walking, climbing, sunning, raining and swimming. Portunglês is our language and it is lovely as honey. Lots of laughs, lots of music, lots of just letting GO, finally, after so much holding in and back, so much tension and tired eyes. Slowly it will all dwindle...I am one of the last ones to leave, back to where BSB awaits with its same old haunting question marks and screeching scratched disks. Please, I beg, and pray from among my beach sheltered dreams, PLAY ANOTHER TUNE! Move on! Amen.

31jul
Through Hidden Tears

Eu pedi por você por entre lágrimas. Toquei meu ventre, mãos fechadas em concha, em calor de uma promessa de vida. Vi tuas roupinhas coloridas em tamanhos que cabem nos meus braços e pedi por você.
Eu pedi por você entre lágrimas. Vi os viajantes com suas presenças flutuantes e temporárias, com olhares de novidade que estranham tanto sol e que tropeçam no obrigado. Senti o peso da mala, a mochila nas costas e a passagem na mão. Pedi pela liberdade dos recomeços que passam pela alfândega.
Eu pedi por você entre lágrimas. Nascer de novo com 24 anos, pernas fortes e pés incansáveis com a força de quebrar correntes. As mais tenazes são as metafóricas. A mais teimosa sou eu.
Pedi por me merecer.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

O não-caminho


Era uma vez, um caminho.
Eu o escolhi, ou ele me escolheu, há controvérsias.
Mas o fato continua sendo, havia um caminho. Ele foi se tornando nítido a partir de uma escolha e a lógica era incontestável – se escolhi o primeiro passo, todos os outros se encaminharão, não?
Agora o caminho sumiu, aos pouco perdeu a cor, o brilho e a nitidez. Tentei comprar óculos, pois certamente minha visão me falhava e me enganava! A dois segundos o caminho estava aqui!
Os óculos só me davam dor de cabeça. Enxaquecas.
Então, havia um caminho e não sei onde foi, onde foi que eu me desviei dele e pisei nas selvas selvagens de uma vida por viver e escolhas outras a fazer. Não há mais obviedades, menina.
Eu continuo caminhando com a lembrança de sua sombra. Seria por aqui, se existisse, não?
Hoje parei de enxergar o caminho, nem na lembrança. Começo a pensar naquele primeiro passo que definiu o caminho por inteiro e penso nas ilusões que criamos; como é bom alucinar com um caminho certeiro. Aqui nas terras sem caminho o terreno é difícil, piso por cima das ervas daninhas, tenho que cortar os galhos que aparecem, virgens e ignorantes de nós e nossos caminhos.
Lembro do primeiro passo e a arrogância que seguiu junto a todos os outros. Olhem pra mim e meu caminho! Sucesso, realização e sabedoria garantidas com a entrega de um diploma, um currículo e um parabéns! Siga em diante para suas pós-graduações, siga sempre em frente, não pare não pare não pare! É uma estrada larga mas me faz lembrar a Trans-Amazônia, cheia de poeira e levando a morte por onde passa...Alguém disse que saberíamos tudo da Amazônia andando por essa estrada larga, mas...há algo estranho.
Havia um caminho, havia eu.
Havia um passo, havia milhões de passos que foram seguindo mesmo com os questionamentos que gritavam mais alto a cada passo dado. Comprei em vão mais e mais óculos de grau.
Hoje joguei fora os óculos e admito:
Não havia um caminho e nunca houve.
Me assusto frequentemente ao me ver longe do que pensava ser o inexorável caminho, me assusto com os ruídos que vêm da selva, desconhecidos, intocados e vorazes. Meus ruídos. Cheguei a achar que fosse morrer, devorada. Ainda me assusto, mas aos poucos me aposso da enorme beleza do meu novo não-caminho sem mapas.
Prados, desertos, mata, cerrado.
Rios que dão em praias, praias que dão em oceanos, oceanos que dão em continentes. Não há caminho mas também não há pressa. Não há norte e não há sul.
Era uma vez...

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Il primo aprile, 2006



It's kind of a fairyland of language for me here. For someone who has always wanted to speak Italian, what could be better than Rome? It's like someone invented a city just to suit my specifications, where everyone (even the children, even the taxi drivers, even the actors on the commercial!) speak this magical language. It's like the whole society is conspiring to teach me Italian. They'll even print their newspapers in Italian while I'm here; they don't mind! They have bookstores here that only sell books written in Italian! I found such a bookstore yesterday morning and felt I'd entered an enchanted palace. everything was in Italian - even Dr. Seuss. I wandered through, touching all the books, hoping that anyone watching me might think I was a native speaker. Oh, how I want Italian to open itself up to me! 

 Elizabeth Gilbert - "Eat, Pray, Love"

Fairyland of Language


Il primo aprile, 2006


Então, olha só meu 1o dia de aventura na Europa...Cheguei bem na França, "descansada" (porque nunca dá pra descansar 100% num avião, convenhamos). Aí, em Roma, não achava de jeito nenhum minha mala.  Me disseram que tinha ficado em Paris mesmo e que eles vão mandar para mim lá em Castelraimondo. 
Isso depois de eu ter rodado por muito tempo, sem saber com quem falar ou o que fazer. Demorei uma hora até criar coragem de chegar ao balcão e perguntar em italiano "Dov'è la maledetta??!!". Brincadiera, não foram minhas primeiras palavras a um italiano na Italia....foi algo mais um tímido, "per favore...".
Quando resolvi toda essa questão, saí CORRENDO do aeroporto para a estação de trêm, que fica incrivelmente longe e do outro lado. Paguei um bilhete para não sei o que, porque ninguem olhou nem pediu, cheguei em Tiburtina 10 minutos depois do ÚLTIMO trem para Castelraimondo. Fiquei perdida de novo....decidi ver se tinha algum ônibus. Allora, também não tinha (isso depois de eu comprar um para o lugar errado, ou melhor a mulher entendeu errado! Quase que eu ia para Lanciona, sei lá onde fica isso...) Voltei para a estação de trêm para comprar um cartão telefônico para ligar para a tal da Giorgia, mas não consegui fazer a ligação depois de 1000 tentativas. As luck would have it, um homem percebe meu desespero e pergunta se eu preciso de ajuda. Expliquei. Ele me emprestou o celular (e ficou me apressando, nem deu para falar direito com a mulher, mas pelo menos deu para avisar que eu não chegaria hoje e ela me deu instruções para ir a estação Termini e prcourar um hotel). O homem italiano ficou falando comigo, não ia embora e entrou em temas estranhos como sua devoção ao Catolicismo ("eu sabia que amanhã é o aniversário da morte do Papa, um ano exatamente??") e sobre sua mulher que também era muito religiosa e que morreria de ciúme ao saber que ele estava ali a essa hora (quase meia noite) me ajudando e que ele deveria ir pra casa (apesar de eu insistir que estava tudo tranquilo agora...) E bla bla bla!
Ele desceu antes de mim do metrô, graças a Deus. 
Mas ele me ajudou bastante apesar da esquisitice, me acalmando (não conseguia parar de chorar de tão cansada e nervosa) e com as instruções de como achar um hotel aqui. 
Saí de Termini e fiquei andando pelas ruas de Roma da sola, di notte, atrás de um hotel com um preço mais ou menos. Achei um, mas estava cheio...Fui para outro e também estava cheio. No terceiro que estava cheio não aguentei e me debulhei em lágrimas na recepção. O Salvatore, recepcionista simpático e velhinho foi gente boa comigo (como diria a Júlia, um vovô) e telefonou para alguns lugares para ver onde haveria vaga e finalmente me deu as instruções para chegar até aqui....um hotelzinho simpático, Ascot. 50 euros, mas eu não estou em condições de achar um mais barato - de noite, sozinha e sem conhecer um A dessa cidade. E mais - cansada até a alma depois de tanta confusão. Não consegui ligar ainda para minha mãe, mas sei que ela sabe que estou bem. 


Ah sim, e tudo isso em italiano tosquíssimo (ainda estou com vergonha) e SEM MALA. Sem roupas novas, sem a necessaire, sem nada a não ser o kit de sobrevivência dada pela companhia aérea como compensação por uma mala perdida. Fala sério. Pensando bem, porém, ter feito tudo isso que fiz com uma mala de 30 kilos não teria sido nada fácil, então...Mas também tem o pequeno fato de que - se a mala tivesse chegado lá comigo, não teria passado por nada disso! Então há dois lados para essa história!


Mas agora está tudo tranquilo. Depois de um banho de gato e uma camiseta branca cortesia da AirFrance, eccomi.
Vou pegar o primeiro trem domattina. Assim vai dar para ver um pouquiiiiinho de Roma e a paisagem no trêm. 
Não caiu a ficha que estou na Europa. Outro continente, totalmente desconhecido e eu totalmente desconhecida a todos. Me sinto como nunca me senti antes: segura - mesmo com tudo isso que aconteceu. Não estou sentindo homesickness. 
Veramente strano tutto questo! Obrigada Deus, me sinto...posso dizer? Feliz!




 Maya a Roma

terça-feira, 13 de julho de 2010

Éramos três



Clack clack clack clack....

Do meu quarto, levanto a cabeça de algum livro e fico de orelhas alertas.
O som aumenta e chega ao corredor.
Clack clack clack....

"Mãeeeee??"

"Oi!?", vem a voz do outro quarto.

"Vem cááááááá!!"

Clack clack clack clack....Ela está na minha porta.

"Que foi, tem que ser rapdinho, tô no meio de uma consulta."

"Nada...só queria dizer oi."

Ela sorri e consente alguns segundos de seu tempo para vir dar um beijo.

E assim como veio, vai...clack clack clack. Volto ao meu livro. 

Tenho 8 anos. Tenho 9. 10.11.12.13.14... Os clacks que anunciavam a presença de minha mãe deviam sempre ser checados, pois presença não queria dizer necessariamente disponibilidade. As vezes não dava para parar na porta e dar um beijo. Muitas vezes era pressa ou crise ou estresse. Mas a gente sempre esperava o momento em que podíamos gritar: "Mãeeeee?".
Era a maldição e a benção de morar no mesmo lugar que era o local de trabalho dela.  Sempre estava ali e nunca sabíamos se realmente estava.

Eu tomo muito cuidado ao falar da minha infância com minha mãe. Tomo extremo cuidado para não passar o clichê de filha esquecida nem o de mãe que vivia para o trabalho. Defendo minha mãe e o que ela teve que fazer com unhas e dentes mas sei que fui uma das mais prejudicadas, junto com minha irmã. E, claro, sem falar da minha própria mãe. Após o divórcio do meu pai, minha mãe se viu diante do desafio de criar 2 filhas pequenas e uma empresa recém-criada que estava em plena expansão, no auge dos anos de carreira e realização profissional. Os 3 bebês eram interdependentes, pois para manter-nos no Brasil com ela, o combinado era que ela deveria poder ter condições financeiras de nos mandar a escolas americanas e poder viajar para visitar meu pai, além de pagar a dívida com ele pela compra do terreno e os custos da construção. Sufoco geral. 
Tomo muito cuidado, mas não posso esconder que é algo que me entristece e que ainda dói. Confesso que não sei como fazer as pazes até hoje pois ainda é uma ferida aberta.

Éramos três; três em quantias flutuantes, pois os anos passados com meu pai dividiram nosso tempo juntas. No começo de sermos três, éramos uma criança, uma bebê e uma mãe solteira. Eu sendo a criança. Morávamos no meio do nada no que hoje é um dos bairros mais afluentes e caros de Brasília. Mas na época, não havia asfalto, supermercado, farmácia ou linha telefônica. Era nós, a terra e o cerrado. Quando não estava na escola, estava inventando a próxima aventura na nossa terra única. Não conhecia as Superquadras e SHIS's dos meus colegas, nem sabia que existiam. Tínhamos espírito de pioneiros e é com certa saudade que eu lembro da época em que batalhávamos contra as tempestades de verão com baldes e panos tentando aplacar as goteiras e das velas que iluminavam muitas noites sem luz. Lembro até hoje da sensação de fazer meu dever de casa a luz de velas no balcão da cozinha. Era nosso lar, cheio de figuras além de nós três que o compunham - uma mistura de veterinários e funcionários que integravam a recém nata e rapidamente famosa Animax. Era família. 
Talvez eu tivesse tido mais facilidade de me resignar a ausência presente de minha mãe do que minha irmã por ter 8 anos e ela 4. Eu tive a presença dela nos meu anos de bebê e agora tinha um orgulho e apego feroz a ela e tentava lhe deixar em paz para que ela pudesse trabalhar e, inevitavelmente, poder descansar também. Quase não saíamos nos fins de semanas, sair de lá para ir no shopping era um evento e tanto, pois tínhamos nossa mãe só para nós. Sem dizer que sempre era sinônimo de compras. Na sua exaustão o que ela tinha para nos dar vinha do que o dinheiro podia comprar. Quando conseguíamos convencê-la de sair para alugar um filme e assistirmos todas juntas, também era um festival. Pipoca e tudo que tinha direito. Quantas vezes, porém, o meu coração partia ao toque do telefone que a chamava para ajudar com algum problema lá no hospital. Eu tinha vontade de gritar quando isso acontecia mas aquela parte madura e sensata falava mais alto "você tem que entender!" e em vez de amargurar, tentava desamargurar minha irmã que não conseguia ser tão "legal" quanto eu. As vezes conseguia distraí-la e envolvê-la no filme e depois em alguma brincadeira.
Muitas vezes não.
E aí eram birras e birras sem fim. Choro, raiva, gritos, mordidas e portas fechadas a estouros. Acho que uma chegou a quebrar. Tinha medo das birras da minha irmã e das reações da minha mãe. Tentava proteger as duas. Tinha raiva da Laisa por não conseguir entender e também da minha mãe por também não conseguir entender. Acho que as birras eram tantas que não deu tempo nem espaço para eu ter uma minha. Seria o cúmulo, duas filhas tendo petis ao mesmo tempo. Ainda mais eu, a mais velha...tinha que ver o comportamento da minha irmã e achá-lo infantil. Eu teria que servir de contraponto nisso tudo, algo que todo mundo não parava de enfatizar: olha como a Maya é madura, gente, é um anjo, é uma sorte danada que ela veio primeira...A garota dos olhos de todos. Que sorte que você não dá trabalho! 

Quando eu "dava trabalho", era causa de espanto. Eu tinha muitos medos, mas como vivia praticamente entre a escola e a ilha deserta que era minha casa, nunca vieram a tona com muita clareza. Além do mais, minha mãe parecia se orgulhar do fato de que eu só queria estar com ela, como se fosse um testamento à nossa relação leal e parceira. Minhas mini-crises eram vistas mais como "ah, está com saudade do pai", ou "ah, está com saudade da mãe", pois comecei a ter crises de choro em volta das viagens que se apresentavam pelo menos 4 vezes por ano indo e vindo dos EUA. Uma vez, quando voltei a Brasilia depois de minhas férias no meio do ano, estranhava tudo de tal forma que não conseguia parar de chorar. Devia ter 9 anos, não lembro, ou 11? Minha mãe sempre reagia da mesma forma: "quer que eu te faça algo gostoso para comer?" Aquela noite em particular ela me deu um pão com presunto e queijo, lembro direitinho como a promessa de que aquele pão teria poderes mágicos caiu aos pedaços. Comi aquilo com gosto amargo e pensei, isso não tira a dor do meu peito. Mas ela acredita que vai tirar, ela quer que eu acredite nisso. Então chorava o resto que tinha que chorar no silêncio do meu quarto. Em algum lugar dentro de mim sabia que minha mãe não dava conta e que eu tinha que dar um jeito de convencê-la de que ela me ajudava, só para não piorar a situação.

Alguns anos depois, o pão virou um calmante. Toma minha filha, toma isso, vai melhorar...Eu sei, eu sei que no mais fundo do coração dela ela queria me ajudar, mas essa era a forma que ela conhecia. Mal sabia eu que ela já usava medicação da pesada havia anos, remédio para dormir, remédio para acordar, remédio para dor, etc. Ela não sabia se cuidar, não sabia como cuidar de emoções, como ensinar a suas filhas? Ao mesmo tempo absorvia a culpa que ela exalava, sem entender. Tinha tanto cuidado para não fazê-la sentir culpada, tanto cuidado de mostrar que estava bem para não aguçar sua culpa. Incrível o que captam as crianças. 
Tomava essas pílulas com raiva também, me sentindo traída em algum sentido. A mensagem era clara ao meus sensores de não-dito: é melhor não sentir essas coisas. Ao mesmo tempo o velho refrão: não dou conta de te ajudar mas te dou o que posso. 

Então, aprendi a não mostrar ao máximo emoções de medo, tristeza, raiva. Não mostrar choro, não pedir colo. Pior de não ter colo é pedir um colo e não encontrar nada reconfortante nele e ter que pedir para sair. Claro, que as vezes não dava conta e saía do quarto banhada de lágrimas e pedia ajuda. Aí ela fazia algo "gostoso para comer" ou então um chá de erva cidreira. Para mim, esse chá tem o gosto de choro até hoje.

Hoje em dia, quando estico a mão para alcançar o Rivotril, juro que lanço olhares de fúria para aquela garrafa. Não é você que eu quero mas é você que eu tenho. Te odeio mas você me cuida. Te odeio, você entende isso? Eu vejo minha mãe em mim e quero jogar o vidro pela janela, quero jogar em um buraco que vá até o fim do mundo e cuspir em cima. Quero dizer para minha mãe que existem outros jeitos, mas no final eu também fiquei meio analfabeta das emoções e fico queita para não ser a hipócrita que pede para que ela pare de depender disso mas ao mesmo tempo carrega um na bolsa. Tento me convencer de que não é a mesma coisa. Mas tenho minhas dúvidas.

Clack clack clack....

"Mãeeee??"
"Oi!?"
"Vem cá!!"
clack clack clack....
"Me põe pra dormiiiiiir?"
Ela sorri e caminha até a cama, puxa o cobertor em volta de mim. Pega o Bunny, meu coelho de pelúcia e o coloca ao meu lado. Hoje ela tem um pouco de tempo. Ela deita na cama do meu lado, encolhida para que caibamos as duas. 
"Posso ficar um pouco com você?"
Ela se deita e me desespero ao perceber que ela adormece. Não sei o que tem de demais, mas seu cansaço e comforto na minha cama me incomoda tremendamente. Me assusta de um jeito que me faz sacudí-la.
"Mãe, mãe..."
"uuuh"
"Você tá dormindo..." (ou seja, por favor, vá dormir na sua cama)
"Ok, boa noite minha filha"
"Boa noite".

É melhor assim.

Sinto falta de minha mãe de forma abismal.

Bunny...quantos choros você acalmou. Eu te abraçava e pedia, por favor, make it stop, make it stop....E quando eu me cansava e acalmava na ressaca pós-choro, te agradecia - thank you bunny, thank you...
Você foi meu filhote, meu amigo, confidente e com seus olhos profundos e sábios, foi a presença onipresente que precisava.